Síndrome da Ativação dos Mastócitos e liberação da Serotonina: o gatilho da Síndrome do Intestino Irritável
Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto
Introdução
Mastócitos são pequenas células imunológicas errantes que se movem através dos vários tipos de tecido do corpo, incluindo a pele, sangue, medula óssea e o revestimento do trato digestivo. Os mastócitos são importantes mediadores de inúmeros processos fisiopatológicos do trato gastrointestinal, e, como consequência, desencadeiam transtornos gastrointestinais tais como a Síndrome do Intestino Irritável (SII). Os mastócitos infiltram os tecidos intestinais e colônicos após uma lesão e podem ser encontrados em áreas próximas dessa injuria, incluindo, lesão da barreira mucosa. Após sua ativação, os mastócitos liberam histamina, heparina e fator de crescimento nervoso, entre outros muitos mediadores que modulam as respostas imunológicas e pós-inflamatórias. Um aspecto de grande importância da ativação dos mastócitos é que sua população se encontra geralmente aumentada no surgimento e na evolução de alguns pacientes com SII. Vale a pena salientar, que estabilizadores dos mastócitos, tais como, o cromoglicato de sódio, demonstrou-se ser capaz de reverter a hipersensibilidade visceral e aliviar os sintomas dos pacientes portadores da SII.
Mastócitos são células granulosas de 20 µm de tamanho e permanecem ativas por alguns poucos meses. Mastócitos se desenvolvem das células genitoras pluripotentes CD34+ na medula óssea. Os mastócitos precursores circulam pela corrente sanguínea, migram para os intestinos, onde eles se diferenciam e finalmente adquirem fenótipos órgão-específicos denominados mastócitos intestinais. Os mastócitos funcionam principalmente na reação de hipersensibilidade imediata na sua fase inicial da inflamação alérgica, enquanto os basófilos, cujas células precursoras são as mesmas dos mastócitos, circulam na corrente sanguínea e são recrutados na fase tardia da resposta alérgica.
A localização dos mastócitos intestinais ocorre primariamente em tecidos na interface com capilares sanguíneos ou superfícies intestinais, e, o conteúdo dos seus grânulos são variáveis dependendo dos fatores que se encontram em sua proximidade. Eles se encontram principalmente na lâmina própria e na submucosa, mas também podem ser encontrados em forma intraepitelial, musculo liso e camadas serosas do intestino. De acordo com o conteúdo dos seus grânulos, os mastócitos podem ser agrupados entre aqueles que contém triptase, mas não quimase, e aqueles outros que contém triptase, quimase, e carboxipeptidase, cada um deles predominando em diferentes locais. As funções dos mastócitos intestinais incluem as regulações da permeabilidade, secreção, peristaltismo, nocicepção, imunidade inata e adaptativa, angiogênese e muitas enfermidades gastrointestinais, tais como, não somente os transtornos funcionais, mas também enfermidades orgânicas.
Os mastócitos são células relacionadas à alergia, responsáveis pelas reações de hipersensibilidade imediata. Eles causam sintomas alérgicos por meio da liberação de produtos denominados mediadores estocados em seu interior ou por eles produzidos. Nas reações alérgicas essa liberação ocorre quando o anticorpo alérgico IgE, que está presente na superfície dos mastócitos, liga-se a proteínas que causam alergias, os chamados alergênicos. Este desencadeamento é denominado ativação e a liberação desses mediadores denominada degranulação.
Alguns desses mediadores encontram-se estocados em grânulos no interior dos mastócitos, podem ser rapidamente liberados, podem ser liberados vagarosamente somente após a célula ser atingida. Os mastócitos podem ser ativados por outras substâncias tais como, a saber: medicamentos, infecções, picadas de insetos ou venenos de repteis.
O papel dos mastócitos na sinalização neuroimune e da serotonina
Os mastócitos causam inflamação da mucosa por meio da estimulação neuronal provocada pelo estresse. O estresse psicológico leva os mastócitos a liberar mediadores químicos na SII. Os mediadores, incluindo histamina, serotonina, protease, citocinas e quimocinas, podem acarretar respostas inflamatórias nas mucosas. Células imunológicas da mucosa são ativadas ou recrutadas para induzir disfunção da barreira epitelial, e, consequentemente, contribuir para o desenvolvimento dos sintomas da SII. Por outro lado, o aumento da inflamação da mucosa ativa nervos intrínsecos e extrínsecos facilitando assim, a ativação do circuito neuronal reflexo com diminuição do limiar da dor visceral. Além disso, a ativação do circuito reflexo altera as respostas fisiológicas, incluindo o peristaltismo, a secreção e a motilidade intestinal. Assim sendo, a frequência da intensidade dos sintomas da SII é afetada pela redução do limiar da dor.
Serotonina e trato gastrointestinal
A serotonina é a principal molécula sinalizadora do trato gastrointestinal. Ela é produzida e secretada pelas células enteroendócrinas localizadas nas camadas epiteliais do intestino. A serotonina exerce sua função de sinalização transmitindo-a por meio de uma variedade de receptores, em inúmeras células imunes e neuronais. Especificamente com respeito à sinalização da serotonina na SII, os mastócitos desenvolvem um papel primordial. As células enteroendócrinas estimuladas por resíduos alimentares ou diversos antígenos secretam serotonina, a qual pode ativar os mastócitos na lâmina própria do trato gastrointestinal. Estes mastócitos ativados passam a induzir uma cascata de processos envolvendo um mecanismo conjunto serotonina-mastócito-neuroimune (Vide figura abaixo).
Este processo de associação entre ambos, serotonina e mastócitos, contribuem para a produção dos sintomas de dor e diarreia, devido a uma inibição do Transportador Seletivo de Recaptação da serotonina na mucosa.
Principais sintomas associados à Síndrome da Ativação dos Mastócitos
Os sintomas mais consistentes com a anafilaxia são:
- Sintomas relacionados ao coração: pulso rápido (taquicardia); hipotensão.
- Sintomas relacionados a pele: prurido, urticária, angioedema e rubor.
- Sintomas relacionados ao pulmão: sibilância, respiração curta e estridor.
- Sintomas relacionados a trato gastrointestinal: diarreia, náusea com vômitos e cólica abdominal.
Referências Bibliográficas
- Lee KN e Lee OY – Gastroenterology Research and Practice 2016:1-11
- Zhou Q e Verne GN – Gastroenterology 2022:162;1962-74